

No início da nossa jornada como investidores, nós amamos “regrinhas de bolso”. “Compre empresas com P/L abaixo de 10”. “Venda se subir 30%”. “Siga a fórmula X”. Essas simplificações funcionam como as rodinhas de uma bicicleta: elas evitam que você caia e quebre a cara logo na primeira curva. O problema? Ninguém ganha o Tour de France de rodinhas. Para atingir a maturidade na análise de ações (e os retornos que vêm com ela), você precisa passar por um processo doloroso, mas necessário: O “desaprendizado”. É preciso abandonar a segurança das regras absolutas dos livros clássicos para abraçar a nuance do mercado real. Inspirado numa reflexão recente do Brian Feroldi — e com a nossa leitura aqui do Fundamentei —, listo 5 conceitos que serviram de base, mas que agora você deve desaprender para evoluir.
A Simplificação que aprendemos: A Random Walk Down Wall Street ensina que o mercado é eficiente, os preços refletem todas as informações e tentar bater o índice é inútil porque os agentes são racionais.
Por que desaprender? Essa teoria pressupõe que o ser humano seja uma máquina de calcular probabilidades. Na prática, o mercado é composto por outros humanos como nós; é movido por medo, ganância e necessidade de liquidez de curto prazo.
A visão madura: O mercado é eficiente na maior parte do tempo, mas profundamente ineficiente em alguns momentos-chave. O seu “alpha” (retorno acima da média) vem justamente de explorar momentos onde a emoção do mercado divorciou o preço do valor. Se você não desaprender a crença na racionalidade total, nunca terá coragem de comprar quando tudo parece ruim (e é a hora que faz a diferença).
A Simplificação que aprendemos: Joel Greenblatt nos deu um presente em The Little Book That Beats the Market: uma lista pronta de ações ranqueadas por ROIC (qualidade) e Earnings Yield (preço). É só comprar as primeiras da lista.
Por que desaprender? Seguir o ranking ignora cegamente os motivos pelos quais a empresa está barata. Muitas vezes, o múltiplo está baixo porque o lucro é cíclico e vai cair, ou porque há um risco de ruptura que a planilha não lê.
A visão madura: A fórmula não é um “oráculo”, é um “detector de metais”. Ela aponta onde cavar, mas você precisa sujar as mãos para ver se achou ouro ou uma tampa de garrafa. Pode ser usada para triagem e descobrir empresas para estudar, mas jamais terceirize sua decisão para uma planilha automática.
[Leitura sugerida: Por que ROIC alto nem sempre significa vantagem competitiva durável clique aqui para ver o vídeo]
A Simplificação que aprendemos: Peter Lynch popularizou o PEG ratio (P/L dividido pelo crescimento). Se for igual a 1, é justo. Abaixo de 1, é barato. Simples assim.
Por que desaprender: Essa heurística funcionava num mundo mais concreto, de ativos tangíveis. Hoje, empresas modernas (SaaS, Big Techs) investem maciçamente via DRE (P&D, Marketing), sacrificando o lucro contábil de hoje para gerar caixa amanhã. Existem várias outras situações nas quais a DRE não representa bem a realidade da empresa. O PEG tradicional falha em capturar essas nuances, além do que simplesmente dividir o P/L pelo crescimento não faz muito sentido matemático.
A visão madura: Um PEG alto não significa venda automática. Você precisa “desaprender” a olhar apenas o lucro líquido contábil e passar a olhar a economia do negócio (Unit Economics, Fluxo de Caixa, indicadores gerenciais). O mapa de Peter Lynch não está errado, mas o terreno mudou.
A Simplificação que aprendemos: Benjamin Graham, o pai de todos nós, ensinou a comprar empresas muito baratas, mas que negociam abaixo do valor de liquidação de seus ativos. As famosas “bitucas de charuto”.
Por que desaprender: A assimetria de informação que existia em 1940 desapareceu. Se uma ação negocia abaixo do valor patrimonial hoje, raramente é um erro do mercado; geralmente é um passivo oculto, governança tóxica ou um negócio em extinção.
A visão madura: O conceito de “Value Investing” evoluiu. Deixou de ser “comprar ativos medíocres a preço de banana” para ser “comprar empresas excelentes a preços sensatos”. O próprio Warren Buffett reconheceu a necessidade de atualizar o plano do seu mentor. Insistir na estratégia de 1940 hoje é a maneira mais rápida de encher a carteira de Value Traps.
A Simplificação que aprendemos: “lucro bom é lucro no bolso”. Venda um pouco quando subir para realizar os lucros e compre mais se cair para fazer preço médio (como sugere Jim Cramer em Real Money).
Por que desaprender: Essa é uma mentalidade de cassino, não de sócio. Ao vender o que sobe, você poda suas flores. Ao comprar o que cai (sem nova análise), você rega as ervas daninhas.
A visão madura: O retorno no longo prazo segue a Lei de Pareto: poucas ações vão carregar todo o retorno da sua carteira. Se você vende suas vencedoras cedo demais porque “já subiram muito”, você mata o juro composto. O investidor sênior sabe que o difícil não é comprar, é não fazer nada e deixar a empresa trabalhar e gerar valor para os seus acionistas.
Desaprender não significa jogar os livros no lixo. Significa contextualizar.
Você pode não utilizar o Peg ratio e a Fórmula Mágica, na prática, mas entender de onde elas vieram e qual o racional por trás dos métodos te ajuda a aprender mais sobre como investir;
Andar sempre com a manada te induz a erros, mas ir contra ela vai dar errado na maior parte do tempo. Achar que só você sabe de algo que o mercado inteiro está passando batido pode não terminar bem.
O risco está em aplicar a ferramenta errada para o trabalho errado.
A evolução do investidor não é uma linha reta.
Você começa não sabendo nada.
Aprende regras de bolso para te dar um norte e acha que sabe tudo.
Desaprende as regrinhas e passa a analisar o todo, percebendo que tudo depende do contexto.
Se você sente que suas análises estão “travadas” ou que os indicadores clássicos não explicam o sucesso de certas empresas da sua carteira, talvez seja a hora de soltar as rodinhas. A simplificação te trouxe até aqui, mas só a profundidade te leva ao próximo nível.
1. Por que “desaprender” é tão importante quanto aprender? Porque as simplificações iniciais (regras de bolso) criam uma falsa sensação de segurança. Para lidar com a realidade complexa do mercado, você precisa quebrar a rigidez mental do iniciante e abrir espaço para o pensamento crítico e nuances que não cabem em fórmulas prontas. O mercado mudou ao longo do tempo e você deve mudar também.
2. Os livros clássicos então não servem mais? Servem, mas exigem contextualização temporal. O que Graham escreveu em 1949 refletia um mercado industrial e contábil daquela época. O que Lynch escreveu nos anos 80 refletia outro ciclo. O erro não está nos livros, mas no leitor que tenta aplicar uma tática de 50 anos atrás num mercado que evoluiu para algo muito diferente.
3. Posso misturar estratégias de autores diferentes? Cuidado. O que funciona para o investidor de dividendos (buscar maturidade e baixo crescimento) é um erro fatal para o investidor de crescimento (que exige reinvestimento total). Reconheça que diferentes estratégias têm “mecanismos” diferentes: misturar as regras geralmente resulta em ter o pior dos dois mundos. A coerência entre os passos de uma estratégia é fundamental.
Qual foi a “verdade absoluta” do mercado que você demorou mais tempo para descobrir que, na prática, não funcionava tão bem assim?