

A Oracle (ORCL) viu suas ações dispararem com a assinatura de contratos bilionários de IA. A Nvidia (NVDA) continua quebrando recordes. Ambas mostram gráficos de “pedidos em carteira” explodindo. Mas, ao olhar uma segunda derivada desses dados, a história muda: uma está prestes a receber o dinheiro; a outra está segurando uma promessa de 5 anos que pode nunca se concretizar totalmente.
Para entender a qualidade da receita futura de uma empresa de tecnologia, você precisa olhar para o RPO (Remaining Performance Obligation). Basicamente, é o dinheiro de contratos já fechados que ainda não foram reconhecidos na DRE.
A tese é simples: o mercado tratou o aumento súbito do RPO da Oracle como se fosse igual ao da Nvidia. Na verdade, não é bem assim.
Nvidia: Vende hardware com alta demanda. Seu RPO gira rápido (40% vira receita em 1 ano). É caixa entrando.
Oracle: Fechou contratos longos de infraestrutura. Seu RPO gira lento (apenas 10% vira receita em 1 ano). É uma receita diluída em um longo período com um certo risco de contraparte.
Abaixo, explico como usar avaliar corretamente para não cair em armadilhas de valuation.
Antes de falarmos de IA, precisamos entender o padrão. Em empresas de Software as a Service (SaaS) clássicas, como a Adobe (ADBE) ou, no Brasil, a Totvs (TOTS3), o RPO é altamente previsível.
Você assina o Photoshop por um ano. A Adobe fecha o contrato, mas não reconhece a receita toda hoje; ela reconhece 1/12 por mês. O restante fica no RPO.
A dinâmica: O gráfico cresce de forma suave e constante (“up and to the right").
O risco: Muito baixo. É difícil você cancelar um contrato essencial no meio do caminho.
Exemplo de outro setor: Pense na Vamos (VAMO3). Ela usa o termo "Backlog" para contratos de aluguel de caminhões fechados, mas ainda não executados. É uma receita contratada que traz visibilidade e segurança para o investidor.
Mini-síntese: Em tempos normais, RPO crescente = previsibilidade de fluxo de caixa futuro.
Quando olhamos para a Nvidia, o RPO explodiu. Mas a natureza aqui é diferente: não é uma assinatura de software, é venda antecipada de hardware (GPUs).
Como a demanda por chips de IA é infinita no momento, a Nvidia consegue travar vendas futuras. O cliente paga ou se compromete, e a Nvidia entrega quando o estoque permitir.
O dado crucial aqui é o RPO Corrente (Next 12 Months):
Cerca de 40% a 50% do RPO total da Nvidia será reconhecido como receita no próximo ano.
Isso indica que o ciclo é curto: Venda → Fabricação → Entrega → Receita.
Isso valida o valuation esticado da empresa: a receita “presa” no RPO vai virar lucro líquido muito em breve. É um crescimento sólido, apoiado por entregas físicas de curto prazo.
Aqui mora o perigo e o motivo desta análise. No final do ano passado, a Oracle virou a “queridinha da vez” porque seu RPO total deu um salto vertical, sugerindo que ela seria a próxima grande vencedora da infraestrutura de IA.
Mas os números contam uma história mais complexa quando olhamos o prazo de reconhecimento.

Enquanto o bolo total cresceu, a fatia que será reconhecida nos próximos 12 meses caiu para cerca de 10% do total. O que isso significa?
Contratos Longuíssimos: A Oracle está fechando acordos de até 5 anos para fornecer infraestrutura de nuvem.
Diluição: Aquele número gigante de bilhões em novos contratos não vai aparecer na DRE do próximo trimestre. Ele vai pingar lentamente, gota a gota, pelos próximos anos.
Receita Suave, não Explosiva: Quem espera que a receita da Oracle dobre ano que vem (como a da Nvidia) vai se decepcionar. A curva será muito mais flat.
Mini-síntese: O mercado comprou a Oracle como uma “nova Nvidia”, mas o perfil de receita dela é de longo prazo, não de injeção imediata de caixa.
Além da velocidade do dinheiro, há a segurança do dinheiro.
Risco Nvidia (Google/Amazon/Meta): Quem compra chips da Nvidia são Big Techs com caixas infinitos. O risco de inadimplência é zero.
Risco Oracle (Startups de IA): Apesar de também ter contratos com as Big Techs, muitos desses contratos longos da Oracle são com empresas emergentes de treinamento de modelos (ex: xAI, Cohere, etc.).
A pergunta que você deve fazer: Daqui a 3 anos, essas startups terão dinheiro para honrar o ano 4 e 5 do contrato? Se a “bolha” de IA estourar ou o financiamento secar, a Oracle pode ter um RPO gigante no papel, mas clientes insolventes na prática. É comparável ao risco da Vamos se os clientes devolverem os caminhões: o contrato existe, mas o cliente não consegue honrar.
Acompanhar um KPI como o RPO (que em breve estará disponível para todos no Fundamentei) é um excelente meio de ter previsibilidade sobre as receitas futuras de uma empresa.
Para os próximos trimestres:
Não olhe apenas o número absoluto. Um RPO recorde é excelente, mas com pouco impacto no curto prazo se for reconhecido ao longo de 10 anos.
Monitore a taxa de conversão (Current RPO). Se ela cair demais, a receita da empresa está cada vez mais dependendo de um futuro com mais incerteza.
Ajuste a expectativa. Para a Oracle, espere crescimento constante, mas suave. Para a Nvidia, o fluxo continua torrencial.
Você costuma olhar o backlog ou RPO das empresas de infraestrutura ou tecnologia (como Vamos ou Totvs), ou foca apenas no que já foi faturado?