

A Ambev (ABEV3) mantém suas vantagens competitivas (marcas fortes e distribuição), mas sofre com uma gestão que parece “acomodada” à zona de conforto da cerveja, entregando um crescimento médio de lucro de apenas 5% ao ano. Ela deixou de ser uma tese de expansão para se tornar uma empresa de valor e baixo crescimento, onde a empresa sem mantém sólida sobre suas marcas, mas evolui muito pouco ao longo do tempo. Esse perfil lembra o das empresas de produtos ao consumidor (Procter & Gamble, Mondelez, PepsiCo, Philip Morris) no mercado americano.
O consenso de mercado costuma tratar a Ambev como a “porto seguro” da Bolsa brasileira. O argumento é quase sempre o mesmo: escala imbatível, balanço impecável e um sistema de distribuição que chega em qualquer bar do interior do país.
Na metodologia de análise do Fundamentei, no entanto, nós olhamos para a governança além dos números frios. E o que vemos hoje é uma visão de gestão que parece ignorar mudanças estruturais no consumo. Enquanto gigantes globais como PepsiCo e Coca-Cola se transformaram em “House of Brands” (diversificando para snacks, água, sucos e cafés), a Ambev parece ter dobrado a aposta em “ensinar o consumidor a beber cerveja”. A questão é que tem que combinar com os russos primeiro.
O problema não é a cerveja em si, mas a passividade. Se o volume de vendas não cresce de forma sustentada, a empresa fica dependente de repasse de preço e otimização de custos. Isso tem limite.
Os resultados recentes mostram uma empresa “redonda” na fotografia, mas sem dinamismo no filme:
Topline Travado: A dificuldade em crescer volumes é real e persistente. O crescimento da receita acaba vindo quase que exclusivamente de efeito mix (vender marcas mais caras) e repasse de preços.
Margens e Eficiência: Aqui, a gestão merece crédito. Fizeram um excelente trabalho de recuperação de rentabilidade e controle de custos. A Ambev é mestre em espremer eficiência do que já possui.
Dividendos e Caixa: Com a mudança nas regras tributárias, a empresa abriu o cofre e distribuiu cerca de R$ 20 bilhões em proventos. Para quem busca renda imediata, a fotografia é bonita.
"A gestão vai bem no que já conquistou. O que falta é querer conquistar mais."
Existe uma clara “disputa de narrativa” entre a empresa e a realidade. A gestão investe pesado em marketing com celebridades e tenta emplacar o conceito de “Beer Lovers”, mas ignora que as novas gerações possuem uma relação diferente com o álcool. Não adianta tentar vender a ideia do consumo da cerveja se o público não mostra aderência.
Ao se recusar a explorar novas verticais de forma agressiva, a Ambev se torna uma empresa “refém” do cenário macro. Se a economia melhora e o povo bebe mais, ela ganha. Se não, ela fica de lado. Para o investidor de longo prazo, que busca multiplicação de patrimônio, depender da sorte ou do clima não costuma ser a melhor estratégia.
Nem tudo é pessimismo. Para ser justo com a tese, existem pontos que podem invalidar essa visão mais cética:
Recuperação Econômica: Um aumento real no poder de compra do brasileiro impacta diretamente o volume de cerveja, o que poderia destravar um crescimento orgânico rápido.
Múltiplos Historicamente Baixos: A ABEV3 negocia hoje próxima de 15x-16x lucro, longe dos 25x-30x de outrora. Se você acredita que ela voltará a ser precificada como “empresa de crescimento”, há um potencial de valorização por re-rating.
Sucesso das Plataformas Digitais: O Bees e o Zé Delivery são operações de tecnologia genuínas que deram certo. Se a Ambev conseguir monetizar esses ecossistemas além da entrega de cerveja, a tese muda.
A Ambev continua sendo uma empresa excelente no sentido de solidez e barreiras de entrada. No entanto, ela deixou de ser uma empresa que “faz acontecer” para ser uma empresa que “espera acontecer”.
Se o seu perfil é de um investidor conservador que aceita um retorno baixo(vamos dizer, cerca de 5% ao ano) em troca de pouca volatilidade, resiliência em crises, dividendos, ela ainda pode ter espaço. Mas se você busca empresas dinâmicas que transcendem seus mercados, talvez seja hora de endereçar o “bode na sala” e reavaliar se a Ambev ainda merece o seu capital.
Próximo passo: Verifique em seu radar se você mantém a Ambev por convicção na tese futura ou apenas por “apego emocional” a uma empresa que já foi brilhante no passado.
1. A Ambev corre risco de quebrar com a concorrência, como a Heineken, por exemplo? Não. A Ambev vai muito bem no seu mercado de cerveja. O problema não é a competição, mas sim a estagnação. A Heineken é um competidor com um bom produto, mas a Ambev consegue vender bem e ser lucrativa nesse cenário.
2. O dividendo da Ambev é sustentável? Sim. A empresa gera muito caixa e tem um balanço desalavancado (mais caixa que dívida). A distribuição recente de R$ 20 bilhões mostra que ela tem fôlego para remunerar o acionista enquanto não encontra onde reinvestir com alto retorno.
3. Quando a Ambev voltará a crescer? Para voltar a crescer acima da inflação de forma consistente, a empresa precisa ou de uma melhora drástica no PIB brasileiro ou de uma mudança de postura da gestão, entrando em novas categorias que não sejam apenas cerveja.
Você ainda vê a Ambev como uma empresa de crescimento ou ela virou uma “vaca leiteira” de baixo crescimento? Para a análise completa, veja o vídeo a seguir: