

A leitura padrão do mercado nas últimas semanas foi de cautela. A ação sofreu quedas impulsionadas por ruídos corporativos: troca de CEO, receios com a mudança nos incentivos fiscais da fábrica em Manaus e um leve recuo na margem de curto prazo.
A leitura do Fundamentei é outra: enquanto o mercado se perde na fumaça, os números mostram uma máquina de execução. A Vivara é o caso raro de uma empresa que domina seu ciclo de conversão de caixa. Mudanças em subvenções fiscais (que são fora do controle da gestão) foram mitigadas com ganhos logísticos em novos centros de distribuição. E a troca de gestão, trazendo um executivo com histórico comprovado em expansão (ex-Arezzo e Smart Fit), atende exatamente à fase atual do negócio: escalar a operação sem perder a rentabilidade.
O verdadeiro espetáculo no balanço da Vivara não está na linha final do lucro líquido contábil (que sofre com lançamentos não caixa naturais de depreciação pela abertura de novas lojas), mas em como ela manipula seu capital de giro.
Joias dependem de commodities. O preço do ouro e da prata dita o custo da mercadoria vendida (CMV). Porém, a Vivara construiu um estoque de matéria-prima e produtos acabados capaz de suprir a empresa por aproximadamente 18 meses. Eles declararam abertamente que só precisarão voltar ao mercado para comprar ouro no segundo semestre de 2026.
Ter 18 meses de estoque não é apenas gestão de risco; no varejo de luxo acessível, é uma arma de destruição em massa contra a concorrência.
Ao não precisar comprar ouro no mercado spot (à vista) durante a alta dos preços, a Vivara ganha um poder de precificação colossal. O ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) da empresa se mantém sustentável porque o capital imobilizado no passado em ouro barato agora gera retornos exponenciais.
No último trimestre, a gestão tomou uma decisão estratégica que assustou quem só olha a primeira linha da planilha: eles optaram por não repassar o aumento de preços.
Por que uma empresa abriria mão de manter sua margem intocada? Para dizimar a concorrência. Com os concorrentes forçados a subir preços para cobrir o custo do ouro caro, a Vivara manteve suas etiquetas. O resultado? Um ganho brutal de 7 pontos de market share. A empresa sacrificou alguns pontos-base de margem bruta temporariamente (embora continue rondando os invejáveis 70%) para capturar um volume enorme de clientes. É a vantagem da verticalização: a Vivara fabrica boa parte do que vende. Além disso, ela utiliza processos eficientes, como a "logística reversa" de suas próprias peças — derretendo coleções antigas para fabricar novas, o que derruba drasticamente o custo de produção e libera caixa.
Além do estoque inteligente, o crescimento operacional (receita subindo 17%, vendas digitais crescendo 30%) é impulsionado pela expansão da marca Life. A decisão de separar as lojas Vivara (luxo tradicional) das lojas Life (luxo acessível e foco em volume) provou-se um acerto monumental.
As marcas não se canibalizam. Elas geram sinergia de negociação de aluguel em shoppings e atacam bolsos diferentes. O resultado é um recorde de aberturas de lojas (40 novas lojas no ano), operando com retorno positivo e dívida virtualmente zerada.
Meu teste aqui é simples: se a empresa queima margem para ganhar volume, o lucro operacional futuro precisa compensar. O que poderia quebrar essa tese?
Choque prolongado das commodities: O estoque de 18 meses é uma ponte, não um destino. Se o ouro e a prata se mantiverem em patamares recordes perpetuamente, chegará o momento em que a Vivara terá que repor o estoque a preços altos, forçando um repasse agressivo que pode testar a resiliência da demanda.
Risco de Execução na Transição: O novo CEO assume uma empresa rodando a 200 km/h. A base de comparação é muito alta e os padrões de resultados atuais da Vivara estão muito exigentes, fazendo com que qualquer coisa além de um resultado excelente seja considerada uma decepção.
Elasticidade no repasse de preços: A gestão indicou que voltaria a repassar preços no 1T26 para recompor a margem. Se o consumidor rejeitar as novas etiquetas, a empresa terá que escolher entre volume ou rentabilidade.
A Vivara é um case raro de excelência em alocação de capital no varejo brasileiro. Ela cresce, não tem dívida, possui vantagem competitiva real (verticalização, escala e marca) e usa seu balanço patrimonial como escudo e espada contra o ciclo das commodities.
O mercado, precificou o ruído da governança e a estabilidade contábil de curto prazo. Para o investidor focado em fundamentos, a geração de caixa livre esperada para este ano — impulsionada pela ausência de necessidade de compra de ouro — é o verdadeiro norte.
O que observar agora: No resultado do 1T26, os olhos devem estar voltados para a recomposição da margem bruta. A gestão prometeu voltar a repassar preços. Se eles entregarem a margem estabilizada com um crescimento de receita resiliente (mesmo que menor que os 17% atuais), a tese de ganho de share definitivo se comprova. Importante acompanhar também se realmente a geração de caixa aumentará na esteira das menores compras de matérias-primas.
Por que a margem da Vivara caiu levemente no curto prazo? Porque a gestão optou estrategicamente por não repassar a inflação de custos para o cliente final. O objetivo foi ganhar market share sufocando os concorrentes menores que não tinham fôlego para segurar preços.
O que acontece quando o estoque de ouro barato acabar? A empresa terá que voltar a comprar no mercado spot. Se o ouro estiver alto, a Vivara precisará repassar preços para o cliente ou aceitar uma margem estruturalmente menor. No entanto, ela fará isso com uma base de clientes (e market share) muito maior do que tinha antes do ciclo de alta.
Múltiplos baixos servem como justificativa de compra para VIVA3? Os múltiplos são um excelente termômetro, mas, no caso da Vivara, o mais importante é olhar a consistência do FCF (Free Cash Flow) gerado pela liberação de capital de giro e o ritmo de crescimento das vendas e abertura de lojas.
O mercado costuma punir o que não entende no curto prazo. Você prefere montar posição em teses de alto risco financiadas por dívida, ou em máquinas geradoras de caixa que estocam vantagens competitivas como a Vivara?